Medo: sentimento estranho!
Medo…
Dizes-me coisas ao ouvido: alturas, abismos, paredes que apertam, águas que engolem, falhas que expõem, olhares que rejeitam.
Eu ouço-te. Sempre te ouvi. Habitas-me com uma intimidade antiga.
Mas há uma parte de ti que fala mais alto – quase como um grito silencioso:
o medo de viver uma vida que não seja minha.
Esse, Medo, és tu quando te tornas espelho – quando me mostras o risco de me perder de mim.
Vejo-te a crescer quando imagino o conforto que não me pertence,
as histórias que não escrevi mas que, ainda assim, quase aceito representar.
Vejo-te quando me ameaças com o esquecimento da minha própria voz – essa que me atravessa na escrita, essa que me chama pelo nome quando tudo o resto faz ruído.
E depois há os medos mais profundos, escondidos da minha consciência…
O medo de não ser vista inteira,
de ser lida apenas à superfície, como um livro folheado sem atenção.
O medo de que o amor – esse em que acredito profundamente –
não consiga tocar tudo o que sou, como se eu fosse demais… ou de menos.
Diz-me, Medo:
sou eu que me diminuo para caber no mundo,
ou és tu que me convences que o mundo não tem espaço para mim?
Porque a verdade – e tu sabes –
é que não me paras. Já tentaste. Já conseguiste, por um tempo.
Mas eu escrevo. Eu crio. Eu volto.
Transformo-te em matéria viva, em tinta, em caminho.
És quase combustível – estranho, mas sagrado.
Então explica-me:
se te conheço, se te transformo,
porque tremo quando é tempo de acreditar naquilo com que fui agraceada –
este dom quieto e intenso que carrego na alma?
Será que te escondes no amor?
O medo de falhar com os outros, de os desapontar, de ferir sem querer?
Ah… aqui estás tu mais subtil.
Eu sei: não quero ser causa de dor.
Carrego um cuidado antigo, quase um pacto silencioso com a harmonia.
Mas diz-me – e responde-me com verdade –
desde quando viver alinhada comigo é uma traição?
Se alguém se desilude, não será apenas porque esperava outra versão de mim?
E se essa versão nunca fui eu?
Talvez, Medo, a desilusão não seja falha –
seja apenas o desencontro entre o que esperam
e o que eu, finalmente, ouso ser.
Por isso fica, se quiseres.
Mas fica ao meu lado – não à minha frente.
Eu sigo. Com medo, sim.
Mas inteira.


